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A transformação das agências de viagens: o que mudou e o impacto no seu hotel

Diana Pedrosa

3 Março, 2026

Se olharmos para os últimos 15 anos, a distribuição hoteleira sofreu duas grandes ondas de transformação.

A primeira foi digital — OTAs, comparadores, metabuscadores.

A segunda está a acontecer agora — e é mais subtil: a reconfiguração do papel das agências de viagens.

E esta segunda fase tem implicações comerciais muito concretas para os hotéis.

  1. A primeira mudança: da agência retalhista ao produtor de produto

Muitas agências físicas deixaram de viver apenas da intermediação.

A pressão sobre comissões, o crescimento das reservas online e a redução de margens obrigaram-nas a evoluir.

Passaram a:

  • Criar programas próprios
  • Estruturar pacotes
  • Operar como operadores turísticos
  • Atuar como DMC (Destination Management Company)

Ou seja, deixaram de depender apenas de comissão e passaram a capturar margem no produto.

Isto significa que, hoje, quando negoceia com uma “agência”, pode estar a negociar com alguém que controla:

  • o cliente
  • o programa
  • o pricing final
  • a experiência global

O hotel deixa de ser apenas fornecedor — passa a ser parte de uma cadeia de valor mais estruturada.

  1. A segunda mudança: a descentralização da venda

Com o crescimento das host agencies e das plataformas que permitem a qualquer profissional trabalhar como agente afiliado (freelancer), assistimos a uma pulverização do canal.

Hoje existem:

  • agentes independentes especializados em nichos
  • consultores de viagens premium
  • criadores de conteúdo que monetizam viagens
  • freelancers que vendem a partir da sua rede pessoal

Estes profissionais operam com estrutura leve, baixo custo fixo e forte componente relacional.

Não têm loja física, mas têm algo muitas vezes mais poderoso: confiança e proximidade com o hóspede.

Ou seja: amigos, familiares e vizinhos podem vender viagens que incluem o alojamento

  1. O que isto altera na estrutura comercial do hotel?
  2. Fragmentação do canal B2B

Antes:

  • 3 ou 4 operadores relevantes
  • 2 ou 3 agências chave
  • OTAs

Agora:

  • múltiplos micro-intermediários
  • menor visibilidade sobre a origem da venda
  • maior dispersão de negociação

Isto dificulta:

  • controlo de condições
  • análise real de rentabilidade por canal
  • consistência comercial
  1. Pressão silenciosa sobre margem

Quando cada micro-agente solicita:

  • comissão específica
  • desconto especial
  • condições diferenciadas

e o hotel responde caso a caso, o resultado é simples: erosão progressiva da margem.

Não é dramático no imediato.

Mas é estrutural no médio prazo.

Sem política clara de distribuição, o hotel passa a reagir em vez de liderar.

  1. Maior exigência de produto estruturado

Estes agentes não vendem apenas alojamento.

Vendem narrativa, diferenciação, experiência.

Se o hotel não tiver:

  • pacotes estruturados
  • benefícios claros
  • elementos diferenciadores tangíveis

→ fica mais difícil ser incluído na proposta do agente.

Neste modelo, o hotel que facilita a venda é o hotel que é escolhido.

  1. Risco e oportunidade

Esta transformação não é negativa.

Na verdade, pode ser altamente positiva para hotéis que:

  • Trabalham segmentos específicos (luxo, wellness, corporate, grupos temáticos)
  • Têm produto diferenciador
  • Querem reduzir dependência exclusiva das OTAs

Agentes independentes qualificados tendem a trazer:

  • clientes com maior valor médio
  • maior probabilidade de upsell
  • menor sensibilidade ao preço puro

Mas apenas quando existe enquadramento estratégico.

O que recomendo aos hotéis neste cenário

  1. Definir política comercial específica para agentes independentes → não improvisar condições.
  2. Criar estrutura de comissões clara e uniforme → evitar negociações individuais recorrentes.
  3. Identificar quais parceiros realmente acrescentam valor → Nem todos trazem o mesmo tipo de cliente.
  4. Medir rentabilidade real por canal → ADR, custos associados, upsell, repetição.
  5. Estruturar produto vendável → o hotel deve facilitar o trabalho do agente.

 


 

Como a DP Hotel Solutions pode ajudar

Na prática, o que faço é trazer método a esta nova realidade.

Trabalho com hotéis para:

  • Mapear o atual mix de canais e respetiva rentabilidade
  • Identificar onde existe perda de margem
  • Estruturar política comercial equilibrada
  • Criar pacotes e propostas que aumentem valor médio
  • Ajustar estratégia de revenue para proteger rentabilidade

O objetivo não é simplesmente aumentar volume.

É garantir que cada venda faz sentido financeiro.

Num contexto em que os intermediários se multiplicam, controlo estratégico passa a ser a principal vantagem competitiva.

 


 

FAQs que normalmente me fazem

1) Isto vai substituir as OTAs?

Não. Vai complementar. Mas pode desorganizar a sua estrutura se não houver controlo.

2) Vale a pena trabalhar com agentes independentes?

Sim, quando trazem clientes certos. Não, quando apenas pressionam preço.

3) Como evito conflitos com a venda direta?

Regras claras de preço e benefícios diferentes para cada canal.

4) Preciso de tecnologia complexa para gerir isto?

Não necessariamente. Precisa de organização e método primeiro.

5) Qual é o maior erro que os hotéis cometem neste tema?

Aceitar condições de forma reativa, sem estratégia.

Diana Pedrosa

EMPRESÁRIA

Quando digo que sou apaixonada pela hotelaria, não estou a falar em lidar com o público; nem tão pouco do serviço prestado aos hóspedes de forma altruísta.

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