Se olharmos para os últimos anos, a distribuição hoteleira sofreu duas grandes ondas de transformação.
A primeira foi digital — OTAs, comparadores, metabuscadores.
A segunda está a acontecer agora — e é mais subtil: a reconfiguração do papel das agências de viagens.
E esta segunda fase tem implicações comerciais muito concretas para os hotéis.
1| A primeira mudança: da agência retalhista ao produtor de produto
Muitas agências físicas deixaram de viver apenas da intermediação.
A pressão sobre comissões, o crescimento das reservas online e a redução de margens obrigaram-nas a evoluir.
Passaram a:
- Criar programas próprios
- Estruturar pacotes
- Operar como operadores turísticos
- Atuar como DMC (Destination Management Company)
Ou seja, deixaram de depender apenas de comissão e passaram a capturar margem no produto.
Isto significa que, hoje, quando negoceia com uma “agência”, pode estar a negociar com alguém que controla:
- o cliente
- o programa
- o pricing final
- a experiência global
O hotel deixa de ser apenas fornecedor — passa a ser parte de uma cadeia de valor mais estruturada.
2| A segunda mudança: a descentralização da venda
Com o crescimento das host agencies e das plataformas que permitem a qualquer profissional trabalhar como agente afiliado (freelancer), assistimos a uma pulverização do canal.
Hoje existem:
- agentes independentes especializados em nichos
- consultores de viagens premium
- criadores de conteúdo que monetizam viagens
- freelancers que vendem a partir da sua rede pessoal
Estes profissionais operam com estrutura leve, baixo custo fixo e forte componente relacional.
Não têm loja física, mas têm algo muitas vezes mais poderoso: confiança e proximidade com o hóspede.
Ou seja: amigos, familiares e vizinhos podem vender viagens que incluem o alojamento
3| O que isto altera na estrutura comercial do hotel?
a) Um novo tipo de canal indireto
Durante muitos anos, a distribuição de um hotel era relativamente previsível:
-
operadores turísticos
-
algumas agências de viagens relevantes
-
OTAs
-
venda direta
Hoje começam a surgir novos intermediários que operam através de plataformas próprias, onde milhares de agentes independentes podem vender hotéis já integrados no sistema.
Na prática, isto funciona de forma semelhante a um marketplace B2B:
o agente não pede cotação ao hotel — simplesmente acede à plataforma e reserva.
Para o hotel, isto significa que pode estar a ser vendido por uma rede alargada de consultores de viagem, muitas vezes sem contacto direto com a unidade.
b) Mais um canal no mix de distribuição
Ao contrário das agências tradicionais, estes agentes não costumam negociar condições diretamente com o hotel.
As condições já estão definidas na plataforma:
-
comissões
-
tarifas disponíveis
-
regras de venda
O impacto, portanto, não está na negociação individual.
O impacto está no mix de distribuição.
Ou seja, este modelo cria mais um canal indireto que compete pela mesma reserva.
Sem acompanhamento estratégico, o hotel pode começar a aumentar a dependência deste tipo de canal sem se aperceber.
c) Maior exigência de produto e posicionamento
Mesmo com plataformas intermediárias, a lógica de venda mantém-se: não vendem apenas alojamento.
Vendem:
-
experiência
-
posicionamento
-
diferenciação
Quando recomendam um hotel ao cliente, procuram propriedades que tenham:
-
identidade clara
-
proposta de valor bem definida
-
elementos diferenciadores fáceis de comunicar
Se o hotel for apenas “mais um alojamento”, torna-se facilmente substituível dentro da própria plataforma.
4| Risco e oportunidade
Esta evolução não é necessariamente negativa.
Na verdade, pode ser bastante positiva para hotéis que:
-
trabalham segmentos específicos (luxo, wellness, experiências)
-
têm posicionamento claro
-
querem diversificar os seus canais de venda
Agentes independentes especializados tendem a trazer:
-
clientes com maior valor médio
-
reservas com maior componente de experiência
-
menor sensibilidade ao preço puro
Mas, como qualquer canal indireto, exige acompanhamento.
Caso contrário, o hotel pode simplesmente adicionar mais um intermediário à cadeia, sem melhorar a rentabilidade.
5 | O que recomendo aos hotéis neste cenário?
1. Monitorizar o peso destes canais na receita total
Perceber que percentagem das reservas começa a vir destas plataformas.
2. Integrar este canal na estratégia global de distribuição
Não tratá-lo como algo isolado.
3. Avaliar rentabilidade real
Comparar ADR, duração média de estadia e consumo interno com outros canais.
4. Garantir coerência tarifária
Evitar que estas plataformas entrem em conflito com a estratégia de preço ou com a venda direta.
5. Trabalhar a proposta de valor do hotel
Hotéis com posicionamento claro são mais facilmente recomendados pelos agentes.
Como a DP Hotel Solutions pode ajudar?
Perante estas mudanças no ecossistema de distribuição, o mais importante para um hotel é ter controlo e clareza sobre os seus canais de venda.
É precisamente aqui que entra o trabalho da DP Hotel Solutions.
O objetivo não é simplesmente adicionar mais canais ou aumentar o volume de reservas. O foco está em garantir que cada canal contribui positivamente para a rentabilidade do hotel.
Na prática, o trabalho passa por:
Analisar o atual mix de canais de distribuição
Perceber de onde vêm as reservas, qual o peso de cada canal e qual o impacto real nas receitas.
Avaliar a rentabilidade de cada canal
Comparar ADR, custos de aquisição, comissões e comportamento do cliente.
Identificar oportunidades de otimização
Detectar onde existe dependência excessiva de determinados canais ou onde a margem pode estar a ser pressionada.
Estruturar uma política de distribuição clara
Definir regras comerciais coerentes entre venda direta, OTAs, operadores e novos canais intermediários.
Ajustar a estratégia de revenue management
Garantir que a política de preços protege a rentabilidade e mantém coerência entre os diferentes canais.
FAQs
1) Isto vai substituir as OTAs?
Não. Vai complementar. Mas pode desorganizar a sua estrutura se não houver controlo.
2) Vale a pena trabalhar com agentes independentes?
Sim, quando trazem clientes certos. Não, quando apenas pressionam preço.
3) Como evito conflitos com a venda direta?
Regras claras de preço e benefícios diferentes para cada canal.
4) Preciso de tecnologia complexa para gerir isto?
Não necessariamente. Precisa de organização e método primeiro.
5) Qual é o maior erro que os hotéis cometem neste tema?
Aceitar condições de forma reativa, sem estratégia.